19 de jul de 2010

É difícil pensar em um exemplo mais inadequado para nos ensinar algo a respeito do estímulo fiscal nas condições em que nos encontramos atualmente.

Mais desespero diante da reação ao estímulo


Serei sincero: o debate acerca do estímulo fiscal travado nos últimos 18 meses me encheu de desespero diante do estado em que se encontra a profissão dos economistas. Se você acredita que o estímulo é uma má ideia, tudo bem; mas, certamente, o mínimo que poderíamos esperar é que os opositores ouçam, ao menos um pouco, o que têm a dizer os propositores da medida. Em particular, a defesa do estímulo sempre foi extremamente condicional. O estímulo fiscal só pode ser chamado assim quando duas condições se fazem presentes: uma alta taxa de desemprego, significando que o risco mais próximo seja de deflação, e não inflação; e uma política monetária limitada pela proximidade do limite inferior zero.

Isso não parece ser tão difícil de entender. Mesmo assim, de novo e de novo os críticos apontam para exemplos de aumentos nos gastos dos governo sob condições que em nada se assemelham a essas, e afirmam que tais exemplos seriam prova de alguma coisa.

Eis aqui o mais novo exemplo, de Tyler Cowen:
Certamente, na Alemanha, o recente histórico de estímulo fiscal não foi totalmente positivo. Após a reunificação, em 1990, o governo alemão tomou emprestado e gastou imensas quantias para financiar a reconstrução e para elevar o padrão de vida da Alemanha Oriental a um nível comparável ao da Alemanha Ocidental. Milhões de novos consumidores foram incorporados à economia.
Essas políticas tiveram como resultado uma unificação política do país, mas seu sucesso econômico não foi tão sólido. Uma prosperidade inicial foi seguida por anos de resultados abaixo da expectativa na produção e no emprego.
Esse trecho me dá vontade de enfiar um lápis no olho. Vamos analisar o exemplo sugerido:

1. O episódio não foi uma tentativa de estímulo fiscal; tratou-se de uma política de oferta, e não de uma política de procura. O governo alemão não tentou estimular a procura, e sim reconstruir a infraestrutura da Alemanha Oriental como forma de aumentar a produtividade da região.

2. A economia da Alemanha Ocidental não sofria de um alto desemprego – ao contrário, estava funcionando a todo vapor, e o BundesBank temia a inflação.

3. A proximidade do limite inferior zero não era uma preocupação. Na verdade, o BundesBank estava envolvido no processo de aumentar os juros para afastar o risco de inflação – a taxa de desconto, que no início de 1989 era de 4%, subiu para 8,75% no verão de 1992. Em parte, esse aumento na taxa foi uma tentativa deliberada de sufocar a demanda adicional criada pelos gastos com a Alemanha Oriental, ao ponto de a mistura alemã de gastos deficitários e aperto monetário ser amplamente considerada a culpada pelas crises de câmbio na Europa em 1992-1993.

Em resumo, é difícil pensar em um exemplo mais inadequado para nos ensinar algo a respeito do estímulo fiscal nas condições em que nos encontramos atualmente. E o fato de um comentarista de destaque informado a respeito dos acontecimentos atuais aparentemente não saber disso após um ano e meio de debate sobre o assunto – bem, como disse, estou me sentido razoavelmente desesperado.

Paul Krugman | 19/7/2010 | 17h01



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