14 de ago de 2010

A recepção deu lugar a um ambiente aconchegante com 650 livros nas prateleiras.


Empresas estimulam hábito de ler nos funcionários



Isaías acordou cedo para chegar ao trabalho às 6h. No trajeto da trivial condução, uma imagem o impediu de extrapolar os resquícios do sono interrompido.



(...) Na noite de São João; havia alegria e rumor; estrondos de bombas, luzes de Bengala; vozes, cantigas e risos; ao pé das fogueiras acesas (...).
O trecho da poesia "Profundamente", do livro Libertinagem, de Manuel Bandeira, ainda ecoava internamente, enquanto ele preparava a indumentária para o trabalho pesado ao som das máquinas da metalúrgica.
Na cidade de Diadema, localizada na região metropolitana de São Paulo, o objetivo é a multiplicação de cenas como essa do cotidiano de Isaías.
O município do ABC, berço da indústria automobilística do Brasil, é palco de iniciativa pioneira de instalar bibliotecas dentro das fábricas para incentivar o hábito da leitura, um dos pilares da educação.
O ponto de partida foi o diálogo entre a prefeitura de Diadema e os sindicatos do ABC visando incrementar a cultura dos trabalhadores. Logo, veio o apoio do Ministério da Cultura, com investimento de R$ 200 mil.
"Eles nos cederam 10 kits (equipamentos, livros didáticos de gêneros diversos e DVDs educativos) no valor de R$ 20 mil cada um, para que pudéssemos por em prática o ‘Leitura nas Fábricas'", descreve Maria Regina Ponce, secretária da Cultura do município.
Entre as dez fábricas que aderiram o projeto, a Legas Metal, fabricante de displays (mostradores) para diversos segmentos do comércio, hoje com 200 funcionários, já inaugurou seu ponto de leitura. Precisou improvisar.
Uma recepção deu lugar a um ambiente aconchegante, com 650 livros nas prateleiras - uma delas produzida na própria fábrica. Alguns pufs e quadros completam a decoração do local, que tem computador e impressora.
"A prefeitura nos procurou porque sabia que sempre tivemos um DNA social. Antes disso, já oferecíamos à comunidade cursos de tae kwon do, violão e tênis de mesa. Na crise, quase quebramos porque não tinha crédito, mas tudo isso foi mantido", garante Nelson Miyazawa, diretor-presidente da Legas Metal, cujo faturamento anual é de cerca de R$ 8 milhões.
O esforço do empresário envolveu também a liberação de um funcionário para receber a contrapartida da prefeitura e dos sindicatos no projeto: o curso de agente de leitura.
"A ideia era justamente ter esse ambiente acolhedor, porque a curiosidade traz o funcionário até aqui, mas ele tem que gostar do local para retornar", observa Valderez Dias Amorim, o funcionário indicado pela Legas para mobilizar a turma.
"Capacitamos para deixar os livros abertos. Livro fechado todos temos em casa, mas nossa intenção é livro aberto", acrescenta Maria Regina.
"Tem gente que nunca pegou no livro, mesmo aqui no ABC, onde temos uma elite metalúrgica. A biblioteca torna-se algo distante da realidade, enquanto a fábrica é o espaço dele", completa Miyazawa.
Amorim não esconde que estava ansioso para a inauguração da sala. Ciente do seu papel, orgulha-se do resultado até agora. Uns 30 títulos foram reservados.
"Vamos ampliar. Estamos conversando com o ministério. Já conversei com a prefeitura de São Bernardo do Campo para instalarmos quatro pontos. Vamos levar também a Ribeirão Pires, nas empresas químicas e de construção civil", adiante Sérgio Nobre, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Conrado Mazzoni |14/08/10 07:00

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